Quarta, 08 de Outubro de 2008

VoteBrasil

Seu Portal de Informações e Notícias Políticas

Bonecos Infláveis

Vencedor do Prêmio iBEST - 2005 / 2006

Coluna por Isabel Vasconcellos Assine Nosso Feed

Isabel Vasconcellos

e-mail site

Isabel Vasconcellos

Isabel Vasconcellos, há duas décadas, é produtora e apresentadora de TV, tendo se especializado na análise da condição social e da saúde das mulheres. Por 13 anos, fez diariamente, ao vivo, o programa Saúde Feminina na Rede Mulher de TV e colabora com os sites wmulher, jornal torpedo, portalrv entre outros. Autora de 7 livros entre eles: Sexo Sem Vergonha, A Menstruação E Seus Mitos.

17/06/2008 - 13h11

Em Tempos Mais Cívicos

Nos anos 1950 todas as crianças aprendiam na escola orgulho em ser brasileiro. Essas crianças se tornaram os jovens dos anos 1960 que queriam mudar o mundo. E mudaram. De uma outra forma...

Altere o tamanho da letra: A- A+

Em tempos mais cívicos dos que os de hoje, nas escolas cantavam-se os nossos hinos. Os nossos hinos, assim como toda a nossa música, são lindos.

Aqueles eram os anos de 1950, quando Juscelino Kubistchek prometia que faria o Brasil crescer 50 anos em seus 5 de mandato e construía, na solidão do cerrado, a mais linda cidade, saída das pranchetas mágicas de Oscar Niemeyer.

Eram tempos mais cívicos nas escolas. Os professores ensinavam – como quer hoje a propaganda do Lula – o orgulho (verdadeiro) de ser brasileiro. Nascêramos, afinal, numa terra abençoada, onde “em se plantando, tudo dá”. Tínhamos a mais bela cidade da América do Sul: Rio de Janeiro, cuja beleza e cordialidade espantava e encantava gringos. Seríamos realmente, no futuro, gigantes pela própria natureza, éramos a nação do futuro.

No Brasil, desgraças naturais não aconteciam. Nada de furacão, ciclone, terremoto. Abençoados por Deus, porque Deus era, sim, brasileiro.

Marta Rocha perdeu o título de Miss Universo porque tinha 2 polegadas a mais nos quadris. Era gordinha e sadia, como convinha a toda boa moça de família. Aliás, as moças tinham que se manter virgens, obedecer aos homens (primeiro o pai, depois o marido) e sonhar com uma casa cheia de eletrodomésticos, utensílios de plástico e outras modernas maravilhas. Nas ruas das cidades, pouquissimos automóveis, todos importados. Nos lares, muitos rádios (enormes) e poucas televisões. A televisão ainda não mandava nos costumes das pessoas. Na música, o Brasil também brilhava, exportando a sua filha caçula, a bossa nova, para o mundo.

Não crescemos, afinal, 50 anos em 5 e já temos até terremotos. Nossas filhas morrem de bulimia e anorexia, tentando imitar um modelo absurdo de beleza, escravas não mais dos homens, mas da moda. Respiramos um dos piores ares do mundo e, nas grandes cidades, passamos a maior parte do nosso dia espremidos dentro de um absurdo automóvel, num absurdo e eterno congestionamento. Os alunos batem nos professores e nem os jogadores de futebol sabem cantar um único hino. E o Rio de Janeiro continua espantando os gringos, mas pela sua absurda violência e sua guerra cotidiana.

O Brasil da minha infância era bem outro. E o futuro, inimaginável, como é hoje. No entanto, em apenas 50 anos, as mulheres brasileiras passaram da submissão absoluta à possibilidade da liberdade, com acesso ao estudo, ao trabalho, ao prazer, ao dinheiro. Em apenas 50 anos, pulamos das ligações telefônicas interurbanas com horas e horas de espera para a comunicação instantânea dos celulares e da Internet. Ninguém precisa ir a uma biblioteca (acessível a poucos) para pesquisar o que quer que seja. Está tudo ali, ao alcance do computador e o computador está, cada vez mais, ao alcance de todos. O transito significa apenas que o automóvel deixou de ser para uma elite e, democraticamente, é para todos. Nossas leis evoluiram. Nossos políticos (apesar dos escândalos) evoluíram. Nossos homens e nossas mulheres e nossos negros e nossos índios, caminham lenta mas seguramente na direção da solução de seus problemas de convivência e de preconceito. Nossas crianças, se não cantam nossos hinos, adquirem um admirável consciência ecológica que, muito provavel e esperançosamente, salvará não só o país como o planeta.

“E o Brasil, por seus filhos amado, poderoso e feliz há de ser”.

O nosso civismo, o civismo dos filhos dos anos 1950, que foram jovens nos libertários anos 60, sucumbiu sob a mão pesada da ditadura militar (ironicamente...) e naufragou de vez com a imensa decepção causada pelos sucessivos escândalos do poder em mãos civis. Nossos corações se endureceram e muitos deles, apesar do alerta de Guevara, perderam a ternura. Não somos mais jovens e muito menos os jovens que acreditavam na construção de um mundo melhor e mais justo. Esquecemos de educar os nossos filhos, com medo de reprimi-los e, agora, nos surpreendemos com uma geração inteira de individualistas sem consciência política e sem perspectiva histórica. Os mais jovens vão buscar nas drogas a imensa satisfação e prazer que poderiam encontrar na cultura, se alguém tivesse se lembrado de mostrar-lhes as riquezas culturais do nosso país.

Mas a sociedade, devidamente estapeada, se refaz em pequenos pedaços. Tem gente – ah, se tem! – trabalhando por um futuro melhor.

E os nossos sonhos românticos e prepotentes dos anos de 1960, daquela geração que ia mudar o mundo e, como diz o Green Peace, conseguiu mudar apenas o clima e mergulhar o planeta na iminência do desastre ecológico; aquela geração que, com medo de tiranizar os filhos, se esqueceu de educa-los; aquela geração cujos sonhos de fato se alimentaram do orgulho e dos hinos do Brasil de sua infância; aquela geração, que também sou eu, se descobre na fila privilegiada dos bancos e dos supermercados, ainda a assoviar, baixinho, um velho hino. Porque a vida tem caminhos inimagináveis para atingir, por vias travessas, o objetivo que se tinha pensado completamente diferente. Ou, como diriam os meus avós, porque deus escreve certo por linhas tortas.


A coluna acima é de exclusiva responsabilidade do autor.

Comentários desta Coluna

Juliana Farias

19/06/2008 - 20h13 | Porto Alegre / RS

Olá

Isabel, primeiro gostaria de dizer que estou muito feliz com minha estréia por aqui como colunista!

Depois, Quero parabeniza-la pelos textos e pelo seu trabalho!!!

Virei Sua fã!

Um Beijo,

Juliana Farias

Escrever Comentário

Ver Todos Comentários

Os direitos autorais desta página são protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998 - © Copyright 2008 VoteBrasil